Ondas do mar em cores - as gerações passam e ficam
Hoje vi um pronunciamento do candidato Boulos no Instagram. Ele falando candidamente que a eleição de 2020 pode significar o início de uma nova geração. Ele pegou COVID e antes de um pronunciamento oficial, fez esse vídeo para o Instagram.
Uma vez fui numa loja de materiais artísticos e uma senhora de 70 anos ou mais estava virando as páginas de um livro caro: isso aqui é uma porcaria, nada aqui tem qualidade... e ela insistia: isso aqui não é bom. Ela olhava para mim, e comecei a dar atenção a ela, que me indagava: você não concorda? Eu devia ter uns 16, talvez 20 anos. Cinquenta anos entre eu e ela. Me surpreendia pois era um livro de Van Gogh. Ela era tão verdadeira...
Me lembrei agora de minha avó lendo jornal. Tinham matérias que ela concordava, matérias que ela discordava. Na época eu achava um absurdo. Oras, pensava eu, se está no jornal, está tudo certo. Ignorante é ela que pensa assim. Mas depois de algum tempo percebi que ela estava certa. A ponderação ao se ler algo escrito diariamente precisa ser um sentido ativo para o leitor. O peso da chancela de um jornal me impressionava muito. E meu pai concordava comigo, isso só tornava minha avó mais ridícula. Mas depois, passei a questionar meu pai e não ela.
Mas voltando, aquela senhora quase que destruindo um livro novo de Van Gogh era muito verdadeira e eloquente. Quando ela tinha 16 anos, fiz as contas mais ou menos, devia ser época em que músicas para senhoras de Mário de Andrade tocavam nas rádios. E fiquei pensando em como as gerações passam, como se fossem ondas coloridas numa praia onde a cor de traz não tem nada a ver com a cor da frente. E misteriosamente as cores mudam.
Há recortes geracionais: a criação de Brasília (e a Copa de 1958!), o fim da Guerra. Há fatos que marcam gerações, como a queda das Torres Gêmeas. O Golpe de 1930. As passagens de séculos. Estamos na beira de uma nova década. Será a década com mais tecnologia embarcada da história da humanidade. As comunicações se tornarão vertiginosamente crescentes.
É difícil pensar em termos de novas gerações. O candidato captou um conceito no ar. As pessoas querem uma nova geração como uma repaginação de valores daqui para melhor. A inclusão dos negros, dos LGBTQI+, das mulheres.
Num desfile de 9 de julho recente vi várias forças passarem em desfile. Nenhuma tinha negros em seus corpos policiais. Nos EUA houve um forte esforço de inclusão social, com negros ocupando cargos de bombeiros a generais, de médicos a altos funcionários públicos. No Brasil as coisas são lentas demais. E ainda desarmônicas. Em Minas Gerais provavelmente os negros são mais incluídos que essa terra de italianos que virou São Paulo. Há as causas perenes... mas como assumir que uma geração tenha um desejo singular e não "apenas" um desejo de mudar a história? Vivemos necessários pontos de aumento de tolerância. Mas a difusão de valores pode levar a alterações de preferências demográficas substanciais. Há estudos que dizem que houveram aumentos vertiginosos de pessoas LGBT, por exemplo. Não basta ser diferente, o desejo é que os diferentes encontrem pessoas iguais a si. Talvez esse seja um ponto de vista confortável para um artista. Um ser que busca, necessariamente, um ponto de singularidade só seu. Querer que outro artista seja igual a você seria um absurdo. Mas os grupos fora das artes querem se unir e aumentar, isso é indiscutível para mim. E esse inconformismo dos limites de cada grupo levam os grupos diferentes a se unirem para aumentarem de tamanho: mais feministas, mais anti-racistas, mais LGBT.
Por quê não entra nessa pauta mais Nerds, por exemplo? Há um alto deficit de capital humano e de tecnologia no País. As causas identitárias atávicas viraram um centro de discussão que está paralisando as balisas do progresso material do País. Estamos de barriga cheia - e ainda assim há muita gente magrinha por ai - e só. Falta lazer, turismo, alimentos melhores (culinária), cultura, ciência... e fica uma longa discussão identitária geracional. Quando, sim, precisamos de mais negros incluídos na sociedade. Sim, precisamos que LGBTs sejam tolerados, sim, precisamos das mulheres incluídas com suas opções de vida respeitas. Igualdade de salários, por exemplo. Mas daí a virar um jeito de pensar o mundo como se esses fossem os valores que devem permanecer sem se alterar por gerações? Oras, há tantos outros valores que se perdem se não nos esforçarmos em empregá-los. Essa necessidade de atualização da sociedade está trazendo um profundo desrespeito à tradição. Um termo tão confuso nesse País secular que de tempos em tempos viramos páginas históricas pesadas demais para retornar.
E essa é uma característica de São Paulo, onde prédios não são tombados, muitas vezes, e o progresso é tão forte que produziu a maior periferia do País. Por quê, aqui, não há um memorial à Mário de Andrade? Porque as velhinhas brancas não importam. Assim como também não há um memorial do samba. Não há memoriais porque a memória não é funcional. A grande capital do trabalho não pode parar. O ócio da contemplação de uma produção passada é comida pelo dia a dia de trabalhos fulgazes ou não, corroendo o passado e o presente e nos levando para um futuro em que a permanência do presente vindouro seja um grande jeito de manter as coisas em ordem.
Não se pensa em muito mais que a sobrevivência. No Irã, terça-feira as duas da tarde, tem muitas famílias no centro de Teerã fazendo picnis. No Japão, um artista trabalha dois dias por semana em trabalhos ordinários e mantém seu ateliê pelo restante da semana. Tudo barato. Não se pensa em desenvolvimento em termos amplos. Ninguém quer ir para Lua, ninguém se interessa pelos seres do fundo do nosso mar. O que importa é o cabelo colorido. O que importa é o corpinho malhado. Não encontro um esporte que me convenha perto de casa. Tenho que entrar nos corredores de espaço-luz dos ônibus de São Paulo para por 30 minutos desse carro mais 6 quadras a pé, chegar até meu destino desportivo. Ser um bom professor de esportes é um valor secundário. Preencher a vida com uma profissão cidadã está em segundo plano. Quer-se fazer muito mais, quer-se mudar a história a partir da identidade que se é. Sou, logo existo. Existo, logo mudo a história. Oras, vamos viver a felicidade de fazer queijo, de dar uma aula, de servir churrasco para os outros (ou beringelas assadas), de plantar e colher flores. O mundo é muito mais divertido que viver a auto-cultuação.
Não se trata de criticar Boulos. Ele foi cristalino nos desejos de seus eleitores. Ele está virando paixão, está virando Legião Urbana. Mas e os eleitores do outro partido, não fazem geração? Há amplas questões envolvendo a teoria dos conjuntos. É fácil falar "nós somos o caminho democrático" numa eleição. Mas e o outro lado? As pessoas não se conformam em termos militares no poder por vias democráticas hoje em dia. Isso é tão comum nos EUA. Mas daí a acharmos que estamos numa ditadura, é de se pensar se o presidente está certo em demitir funcionários públicos por critérios ideológicos. É errado demitir alguém por ser petista. A cadeira faz a pessoa. Se você é petista e trabalha no IML, logo vai pensar mais como um legista do que como uma pessoa necessariamente a favor dos proletários no poder. Manter os ideológicos num governo diferente talvez fosse a melhor medida democrática a se fazer. O presidente confundiu o Não da sociedade ao petismo ao Não dele ao petismo. Enquanto presidente, ele deveria governar para todos. Na teoria dos conjuntos, isso significaria incluir os petistas no quadro de seu funcionalismo público. O resultado é que fritaram o presidente que, sem apoio no Congresso se rendeu ao Centrão.
O próprio presidente talvez esteja pensando em termos geracionais. Por quê isso se torna assunto da política? As terminologias estão muito a flor da pele e já não sabemos com quem dividir os conceitos preciosos da humanidade. Se as pessoas das bases sociais descobrirem o que significa perene, logo vai entrar nos discursos que isso ou aquilo devem ser perenes. É difícil mensurar e determinar o que fica e o que desmancha de uma geração para outra. Tem uma frase que diz: tudo que Deus faz é eterno. Ou se torna eterno. Dá para imaginar uma sociedade sem smart phone? Mas quem fez o smart phone, Deus ou as pessoas que agiram a Seu serviço? Foi mesmo Deus que fez o smart phone ou um dia o smart phone deixará de ser eterno como o é, nos dias de hoje?
A alternância de poder enriquece o Brasil. Eu constatei isso. Marta Suplicy enriqueceu São Paulo, veio depois de Pitta. Lula enriqueceu o Brasil, veio depois de FHC. São momentos que requerem uma necessária união pelos opostos e isso, por mais paixões que movam nas bases, despertam um sentido de responsabilidade em nossos governantes.
Tem tantos valores que são deixados as margens: como fazer uma arte de mercado socialmente aproveitável? É uma questão que estou sozinho para resolver, por exemplo. E tenho certeza que essa é uma questão que abrange muitos artistas. Gostaria de dizer a nossos governantes municipais: chega de repulsa à arte de mercado. Mercado e sociedade também se encontram, são interesses convergentes. É pobre o resultado da arte política atualmente aceita em alguns espaços municipais. Com raiva desse filtro, artistas apoiam Boulos. Que não sei o que pode fazer de melhor, se não intensificar o teor descricionário de arte política municipal contra o governo federal.
A política virou um Toddy que entra gostoso nas entranhas das pessoas. Pelo menos é assim que elas se manifestam. Mas política não é gostoso. As pessoas estão manifestando um desejo de transformação. Querem que seja doce o que é amargo. Estão muito insatisfeitas e frustradas com a atual situação.
Política é amargor. Ler um plano nacional. Assistir uma sessão plenária ou uma sessão ordinária de Comissão na Câmara Municipal. E como alguns tipos de amargor, é um prazer. Estou torcendo para que Boulos ganhe, acho que será um choque de realidades para muita gente. Me preocupa o ensino não-binário nas escolas. Não sei qual o nível de permeabilidade dele à questões de educação infantil. Até porque, sexualidade se expressa da adolescência em diante. (no Brasil ensino Médio - faixa etária dos adolescentes, é alçada do governo do Estado). É grotesco ter encontrado, anos atrás, uma criança de quatro ou cinco anos, travesti, entre as classes mais pobres da sociedade. Fazendo caras e bocas e poses femininas sensuais com o corpo numa fralda e ainda com um tampão num dos olhos. Se fosse menina, seria estranho. Era menino.
Talvez as pessoas estejam certas e a política possa ser um Toddy, talvez seja apenas um caldinho de feijão cujos muitos desconheçam o sabor. Seja como for, me parece que o tecido de uma geração futura é um caminho tão particular e delicado, que a educação de crianças é um permeio tão sensível e frugal que foge a política eletiva. Seja quem ganhar, vamos ter sempre uma impressão de liberdade poética inerente a cada indivíduo em sua liberdade de escolhas do que ler, por exemplo. A ideologia é um forte fator geracional. E as ideologias mudam de valores conforme as gerações mudam. Hoje, ser feminista e comunista tem sentidos diferentes que há vinte anos atrás. Porque os praticantes desses valores são novos. E os consensos conquistados do passado recentes trazem novas questões e comportamentos a tona.
Boulos tem duas filhas. Talvez ele esteja olhando mais para dentro de casa do que para fora. Será um grande impacto para elas ter um pai prefeito depois de uma jornada de movimentos sociais tão ruidosa. Vencer na vida a partir de suas escolhas terá um efeito surpreendente em muita gente que não quer ser radical, mas quer radicalizar suas opções de vida. Que precisam de revolta para mudarem seus destinos. Sinto isso necessário até em mim. Não há vida sem revolta. Mas a revolta pode acontecer num sentido íntimo e interior de maneiras que decidam uma profissão e não outra. Tenho um tio-avô que indignou seu pai porque preferiu a carreira militar a carreira policial, como ele. São conflitos que vem de revoltas interiores. Precisamos de liberdade para fazer novas opções de vida que, não necessariamente são um cabelo colorido.
Eu gostaria de ter pintado meu cabelo na adolescência, nunca tive coragem. O máximo que fiz foi mudar a cor para castanho claro. Até tentei. Mas o nível de liberdade que me foi dado sempre foi tão grande, que não senti necessidade de ir por caminhos diferentes. Tanto que imitei a profissão do pai. E essa é uma questão de muita gente: seguir ou não a profissão dos pais? Fica tudo em segundo plano. As pessoas estão indo para identidades alternativas e fico preocupado pois o tempo passa e as questões mais profundas, como como escolher um cônjuge, ficam eclipsadas. Talvez esteja confundindo o meu percurso com o das outras pessoas. Mas é que não vejo espaço de projeção para minhas dificuldades. Fico engolindo meus problemas para dar espaço para as outras pessoas existirem. Como escolher uma mulher? É um assunto que ninguém diz. Ou, se diz, fica no nível do sensível. Ou da recusa desse valor por ser apenas pelo nível do sensível. (Será que é feio, para algumas pessoas, ter tesão por uma mulher ou um homem?). Dai já entram vulgaridades como o sensível por gente comprometida. Música de corno, quê, estranhamente, nunca dei atenção.
Mas certamente Boulos também está olhando para o lado de fora da vida das outras pessoas. O que queria dizer é que nova geração para ele, deve ser a partir da idade das filhas dele, ou seja, 9 e 10 anos, ou 8 e 10, não lembro. A educação que temos nessa fase da vida... dito de outro modo, as decisões que tomamos nessa fase da vida já valem para o restante do percurso. Eu me arrependo de coisas desde os 10 anos de idade. Coisas que eu gostaria de ter feito diferente. Acho que é do sabor e do valor da geração de Boulos, que é exatamente a minha, temos a mesma idade, uma certa inteligência em se projetar o futuro. O futuro é uma constante de projetos de manutenção e de inovação. Ele ver que com ele a dose de inovação será maior, mais verdadeira, me faz pensar no quanto ele duvide de nossa capacidade de reação caso o outro lado ganhe. Sempre poderemos ser irreverentes. Sempre haverá o espaço para discórdia. O poder é apenas uma parcelinha do grande conjunto de compromissos que os poderosos, digo, o funcionalismo público, tem todos os dias.
Sair do campo das intenções e partir para o campo da prática pode ser muito bom para Boulos e seu grupo. Para, a partir dai, nos darem uma verdadeira contribuição de como adicionar valor e sentido àquilo que Deus faz por meio de nós.
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