Minha primeira obra-de-arte
A história que vou contar trata de nenhum evento conflituoso. É a descoberta de um novo mundo. Meu corpo, quando eu era criança, basicamente se estendia a meu quarto. Ele era minha mente e minha matéria. A mesa, a cama, os armários, tudo bagunçado. Era ali que eu me encontrava, em minha desorganização eu sempre sabia aonde achar as coisas. Meu pai me ninava olhando para a avenida Faria Lima: a profusão de vermelhos nas lanternas dos veículos impressionava-me desde criancinha. A janela era meu quarto, eu era meu quarto.
Um dia colam algumas estrelinhas no céu
de meu quarto, daquelas fosforecentes que brilham no escuro. Eu esperava elas
apagarem depois das luzes serem apagadas e dormia.
Um dia algo muito especial aconteceu:
colaram uma estrelinha do lado da minha cama. De tanto que eu gostava,
colocaram uma perto de mim.
Quando pintaram o quarto, esqueceram-se
de retirar a estrelinha. Ela foi pintada junto e até hoje sei o relevo da onde
ela está, do lado de minha antiga cama.
Os anos se passaram e eu até esqueci
que essas estrelinhas existiam. Mais velho, pré-adolescente, eu mudei de
quarto. Fui para o maior quarto da casa pois era eu quem mais ficava em casa.
Meus pais já eram separados e minha mãe foi muito legal em aceitar. Mal sabia
ela o efeito expansionista que aquilo provocaria em mim. Meu pequeno latifundio
ganhara mais espaço. Entre outras coisas, foi por isso que virei pintor, por
ter mais armários, tinha onde guardar mais bagunça, dessa vez, bagunça de
pintura. Tinha onde empilhar quadros nos cantinhos.
Foi quando descobri que as estrelinhas
estavam a venda e em cartelas. Quando descobri aquilo praticamente fiz um
projeto. Eu gastaria toda a cartela o quanto antes. Incomodado, preenchi apenas
um pedaço do teto de meu grande quarto. E ficava olhando aquelas estrelas cheio
de prazer em ter dezenas e não cinco ou seis estrelas como antes. Fiquei alguns
meses convivendo com aquelas dezenas de estrelas, algumas grandes, tinha até
uma luazinha crescente.
Foi quando meu pai, vendo que eu adorava aquelas estrelas, me propôs de por mais e mais. De fazer um céu a noite.
- Vai ter muita luminosidade quando eu apagar a luz, pai.
- Vai e faz, você vai ver que vai ficar legal!
Foi a primeira vez que percebi que dava
para fazer algo grande na vida. Fui lá e fiz. Algo grande sempre existiu e
sempre existirá. Mas algo feito pelo homem, e eu era essa pessoa que ia fazer
isso. Peguei a escada e passei um tempão colando as estrelinhas no teto. Com o
cuidado de ter apenas uma Lua. Senão, não pareceria real.
Mais tarde, eu e meu pai fizemos um
projeto de iluminação para o quarto. Instalamos nove spots no teto, com fios
pretos saindo de uma mesma fonte de energia no teto. Por isso apelidamos a
instalação de lustres de teia-de-aranha. Percebi que se colocasse uma luz negra
entre as nove lâmpadas, as estrelinhas brilhariam mais depois de apagada a luz.
Foi o que fiz.
Até que um belo dia uma vizinha mais
velha que eu vem em casa, vem no meu quarto. Ela era festeira. Quando viu a luz
negra logo pensou:
- Apaga as outras lâmpadas e deixa só a luz
negra acesa.
Quando faço isso, o céu noturno dentro
de meu quarto brilha, brilha, brilha.
Foi minha primeira obra de arte.
Essa história acaba de um jeito
engraçado. Eu e minha vizinha querida…
Bem, antes eu preciso dizer que
pré-adolescente eu fazia muitas esculturas de argila. E meu irmão gostava de
pintar as unhas com cores masculinas. Eu pegava os esmaltes de meu irmão,
comprava cores femininas nas lojas e pintava minhas esculturas com esmalte de
unhas.
E minha história acaba assim, eu e
minha vizinha querida pintando as lâmpadas com esmalte de unhas.
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