Má fé e desordem
Estou fazendo um curso de Arte Concreta, Neo Concreta até Arte Contemporânea. Um curador jovem, de 40 e poucos anos de idades, que reuniu uma turma para ele dar aula e eu entre essas pessoas. O curador é competente, expressa bem os consensos de época e de área. Nem tudo concordo com ele mas sei quando é a opinião dele e quando se trata da transmissão de uma opinião mais consolidada.
"A passagem da arte moderna para a arte contemporânea se dá pela recusa da arte como fetiche, estabelecendo relações com os meios expositivos que vão além de serem objetos de consumo."
Se não me engano essa foi a frase que ele usou para inaugurar a arte contemporânea em seu curso.
Hoje fui no dicionário virtual buscar o significado da palavra fetiche, mas antes de falar disso, bem, é verdade que esse conceito de recusar uma arte como fetiche teve consequências imediatas. Um fetiche é algo que se pode colocar de baixo do braço e levar para casa. Logo a arte com suporte (tela, papel, escultura) passou a ser grande, muito grande. Richard Serra, mesmo Pollock já está nessa passagem (alguns dirão que não). Mas aquilo que não compreende as dimensões domésticas normais passou a ser um dos parâmetros para nova arte.
Não ser um fetiche se tornou uma diretriz tão forte como quanto não ser retrógrado no comportamento hoje em dia.
Fetiche tem dois significados que, infelizmente, na arte, quando se fala em fetiche, talvez, se misturam. Fetiche é um objeto a que se atribui poder sobrenatural ou mágico e se presta culto. Fui agora pouco no ateliê de uma amiga artista e lá havia um objeto indígena parecendo um berimbau sem cabaça. Oras, objetos indígenas podem ser fetiches, penso eu agora, nesse instante. Por mais que sejam comuns entre algumas pessoas, o segundo significado de fetiche está ligado a psicopatologia: objeto inanimado ou parte do corpo considerada como possuidora de qualidades mágicas ou eróticas. Um pouco de fetiche é considerado normal, muito fetiche, não.
É famoso por meio do cinema americano que há pessoas que pagam profissionais do sexo para realizarem fetiches sexuais em Nova Iorque, sempre Nova Iorque. Mas um fetiche pode ser uma lambida nos olhos ou alguma parte do corpo que desperta mais prazer que nos órgãos sexuais. É algo, portanto, extremamente íntimo e, fora o senso comum dos profissionais do sexo de Nova Iorque, sem valor.
Assim como tem um valor relativo um objeto de culto mágico indígena ou do candomblé. Custa fazê-lo, mas isso é o de menos. E por mais que as pessoas queiram comprá-los, os preços certamente não vão chegar a preços de Volpis, Picassos ou Tarsilas. Há tribos nas ilhas Polinésias que trocam de colares como as coisas mais importantes em suas vidas. E formam-se jornadas marítimas para as trocas de colares. Conseguir um colar daqueles - para quem é de fora - é quase impossível.
Atribuir a algumas obras de arte o caráter de fetiche é, portanto, uma crítica ao capitalismo. Que coloca valor aonde não há o valor, pois o valor é social, é imanente ao povo. Volpi deveria pertencer ao povo assim como as orlas das praias não podem ser privatizadas.
E ai surgem as primeiras confusões. Se trabalhos do passado recente adquiriram cifras estratosféricas, se se faz algo parecido se estará ou copiando ou tentando atribuir o mesmo sentido de valor.
Oras, é possível aprender muito com o Cubismo. Mas o cubismo já passou. Está rendido aos grandes preços, os museus que conseguiram já absorveram seus melhores resultados e está tudo bem. Não precisa-se, portanto, aprender mais com o cubismo. Será?
A História da arte é uma sequência lógica de ações e negações. Quando você nega a perspectiva e fraciona a realidade, você está sendo lógico, pela negação, ao passado imediato. Isso é o Cubismo. Porque seus quadros valem mais que tambores ou colares não é corrupção de valores mágicos, é um sistema de funcionamento do capitalismo de mercado muito íntimo que, misteriosamente, privilegia os melhores resultados. Ninguém sabe de uma arte boa que fica encoberta, hoje, por muito tempo. Arte boa brilha, ganha seu espaço! Claro, há competição de mercado. Mas há, também, os alicerces do valor dado pelo público. E os consensos se formam. Há infinidades de nomes estabelecidos que, até onde sei, não tiveram atividades de mercado consistentes e que, no entanto, são nomes fortes no mercado: Inimá de Paula, Niobe Xandó, Macaparana. São todos fenômenos de mérito artístico que, sem alavancagem de marketing, estabeleceram seus lugares ao Sol.
Quando aceita-se que a arte até certo período está quase que fraudada por mecanismos de mercado que precificam o que é mágico... desiste-se da mágica e esta ausência da mágica passa a ser um critério de validação cultural no meio. As relações de arte e mercado infelizmente são abjetas a muita gente. E buscar uma arte que conforme esse ensejo em fazem algo especial mas fora de uma alçada de precificação passa a ser um dos norteadores principais para produção da arte atual, uma verdadeira ruptura com a História da Arte. Por critérios ideológicos eu diria, nem de esquerda nem de direita mas inerente aos conceitos de valores atávicos do fazer artístico.
Um amigo fotógrafo expos fotos imensas nos melhores lugares da Alemanha. "Mas não vende", ele me disse! Fazer uma arte que venda se tornou, infelizmente, um acessório de ações maiores que estão para lá dos critérios validadores do mercado de arte. Faz-se, então, instalações, performances, vídeos E, algumas telinhas. As telinhas pagam todo o restante.
E nessa equação deixou-se de lado todos os profundos ensinamentos e conquistas da História da Arte que, assim como o ateliê de Rembrandt, sem alunos a escola se perde. Estamos nos promovendo a elo perdido sendo que às gerações futuras só vai restar começar (ou recomeçar) algo de novo e com valor menor. Pois arte é escola. Se você para de olhar a História, você fecha a escola.
Escola enquanto circulação de ensinamentos, mais que os muros da escola em si.
É urgente fazer uma arte que conforma as expectativas de mercado, sem os exageros de mercado de alguns grupos específicos. Claro, essa é a intenção particular de cada um. Mas Matisse, ao fim da vida, vendia trabalhos a 4 mil dólares, atuais 40 mil dólares. É ridículo perto de cifras que são vendidos trabalhos de artistas jovens hoje em dia.
Há um embate institucional perto de colecionadores onde as instituições nunca terão dinheiro para competir com os colecionadores e, assim, resta aos espaços públicos a arte de segunda qualidade que, pela lógica descrita acima, não pode se verter a ser uma arte de mercado. Há um apartamento ideológico que está minando todas as possibilidades dos artistas se tocarem em intenções, processos e resultados.
Michelangelo foi mágico. Surgiu uma escola de admiradores artistas de Michelangelo que fizeram a maneira de Michelangelo, o Maneirismo. Por quê Picasso não deixou discípulos, seria ruim? Não, seria bom. Aliás, ele influenciou muita gente. Mas não a ponto de criar uma escola a la Picasso mais nítida e propositiva.
A técnica tem capacidade de criar mágica aos olhos de quem vê. O virtuosismo manual, a serviço da resolução de uma imagem, da captação do sentimento de mundo do artista, da expressão de seu momento de vida, isso tudo se combina a sua sensibilidade manual e expressa-se algo mágico. A técnica é importantíssima. Mas quanto mais se esmera nela, mais dirão que é apenas técnica. Ai até Picasso broxou. Não sei se por isso, mas é fato que Picasso a partir de certo momento deixa a tinta escorrer. Era seu esforço de superar o novo tabu: a recusa ao fetiche enquanto arte?
Não se deve prestar culto a obras de arte. A cultuação de artistas também foi algo muito incômodo. A atração de milhões de olhares, no entanto, é diferente do estímulo íntimo que se desenvolve entre uma pessoa e um objeto de arte. Arte é apenas arte. Entende-la ou não entende-la, com os sentimentos, tem um limite. Por mais catártica e transformadora que seja uma obra de arte, por mais que ela mude os seus destinos de vida, a "perturbação" positiva que ela causa em você tem, ou deveria ter, limites. A massificação foi confundida com a cultuação da arte e dos artistas. Isso seria idolatria caso a massificação fosse promovida com esse fim. A massificação é um fenômeno da natureza midiática. Ela é incontornável, ela existe. Os artistas são humanos, suas obras são ações que contribuem com um sistema verdadeiramente próprio do entendimento do que é divino. Ou o recusam, afinal, há arte satânica na música, por exemplo. E essa constatação é um presente da internet. A internet horizontalizou as percepções de mundo. Muitos pedestais foram anulados.
Entre culto e adoração, eu estabeleço o limite entre o que é saudável pela convivência com uma obra de arte. Ouço uma música que me agrada, se for muito boa ouço 3 vezes, 5 vezes num dia e pronto. A convivência é o melhor sentido de oportunidade de absorção da arte: um poster do Van Gogh, uma rotina de ir por mês uma vez a Sala São Paulo e, se fossemos uma cidade decente, óperas e ballet.
Tanto é inverdade que se deva cultuar arte como é inverdade que, uma vez cultuada, não deveria ter preço. Oras, os museus europeus, com arte europeia, estão de portas abertas. O ingresso não é caro nem barato, é um preço justo.
O que me toca é o impacto das dinâmicas de consenso em torno da produção artística. Oras, eu quero fazer algo com poder sobrenatural ou mágico, que toque o íntimo das pessoas e ainda assim tenha um preço, não por prostituição de algo íntimo, não por troca de sentidos de mercado com o que para alguns é sagrado (ou como se fosse sagrado). Ser terrenamente comerciável não é necessariamente profano.
Acho que as palavras poderiam ser melhor utilizadas. Ou investigasse-se melhor quê palavras usar para descrever as percepções de mundo em torno dos valores estabelecidos que segregam, a muitos, a melhor arte que fica presa em coleções particulares ou, ainda bem, nos livros.
Quando se trata de arte e mercado deveríamos nos esforçar para criar uma nomenclatura de boa fé. Fetichismo e arte é má fé. Produzir para vender compreende uma relação de tempo que vai além do que as pessoas conseguem perceber. É uma das perguntas que mais me fazem: "quanto tempo você leva para fazer?"
Uma vez alguém fez essa pergunta a um artista experiente que disse algo assim: 30 minutos e 40 anos de vida.
O capitalismo enquanto moldador do comportamento humano para a produção pode ser criticado. O capitalismo não é bom nem ruim, ele é crítico. É o sistema que estamos incluídos. Até as sociedades socialistas tem papel moeda e lastro.
Pode-se perceber um artista produzindo para vender. Mas Giacometti não passou pelo mesmo ou Monet ou Dubuffet? Acho que quando um artista se torna comercial o problema está mais naquilo que o público valida como qualidade do que o que os artistas efetivamente fazem. Há fraudes, é inegável. Aliás, estas tem diminuído. Digo, artistas sem qualidade que fazem muito sucesso.
Um artista que produz sem a intenção de vender é algo que mora no coração de quase todos os artistas. É híbrido: faz-se um bolo para ficar bonito mas também para comê-lo. Quem só comeria um bolo se estivesse feio?
Olhando-se de longe pode-se perceber uma relação de atividade pessoal e mercado que tiram o brilho de um artista. Onde talvez apenas um forte aparato institucional autorize o artista a gozar das duas frentes: a arte e o mercado.
É preciso deixar isso tudo de lado. É preciso despertar um sentido de arte que o público dê o seu valor de precificação e se conviva bem com isso.
E uma vez esse ponto esteja pacificado, ai sim, produza-se o quanto quiser.
Genial Nando! Obrigada por compartilhar um texto lúcido, claro, simples e profundo! Sou sua fã!!
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